Uma Fábula sobre Fábulas
Publicado em: 13 de Maio, 2026
Dentro de um pequeno estúdio no interior de uma grande e velha árvore, a Coruja escritora encontra dificuldades em escrever sua próxima história. Nenhuma trama conseguia adentrar sua “não-tão-criativa mente” — ou assim ela pensava.
Em verdade, era difícil para a Coruja pensar em uma história nova, pois passava a maior parte do seu tempo trancada dentro do estúdio. Ela simplesmente não conhecia o mundo e os outros animais o suficiente para escrever sobre eles.
“É apenas um problema com criatividade!”, ela pensava.
E então, para a sua surpresa, alguém bate na sua porta.
“Toc, toc!”
Ao abrir, a Coruja é surpreendida ao ver o seu amigo Corvo, o qual não via há tempos.
“Olá, Coruja! Quanto tempo!”, o Corvo a cumprimenta alegremente.
“Oi, Corvo...”, a Coruja respondeu, ainda deprimida apesar do reencontro.
“O que houve? Está triste?”, o Corvo pergunta, preocupado.
“Ah, Corvo… Não consigo escrever! Nenhuma boa ideia vem à minha mente!”, a Coruja desabafa.
O Corvo esfrega sua cabeça e pensa...
“Tenho uma ideia! Venha comigo!”, ele diz. O que será que tem em mente?
“Para onde…?”, a Coruja pergunta, preocupada. Entretanto, o Corvo já havia alçado voo.
A Coruja, por não ter nada melhor a fazer — exceto sofrer —, decide acompanhar seu amigo Corvo. Os dois sobrevoam o vilarejo juntos e observam os outros animais vivendo suas pacatas vidas. Alguns até os veem e os cumprimentam. Outros até demonstram surpresa ao verem a Coruja fora de sua casa depois de tanto tempo isolada. Isso faz a Coruja sentir um pouco de vergonha.
Ao deixarem o vilarejo, ambos adentram a floresta que cerca o vilarejo e chegam até um grande e misterioso lago. Sua água cristalina faz o olho do Corvo brilhar.
“Sempre que me sinto para baixo… eu pesco!”, diz o Corvo. Este era o seu plano para animar sua amiga.
A Coruja demonstra certa aflição e o Corvo percebe.
“Eu nunca pesquei antes… Eu nem gosto tanto assim de água…”, ela diz.
“Mas, este não é qualquer lago, Coruja.”
“Esse é o lago das memórias; aqui é onde todas as memórias dos moradores do vilarejo ficam, incluindo as dos que já se foram”, ele revela.
A Coruja fica impressionada com essa descoberta. Nunca ouviu falar de tal lugar tão incrível tampouco poderia imaginar que algo assim existisse.
Finalmente havia encontrado uma fonte infinita de inspiração! Ou pelo menos, foi isso que pensou…
Imediatamente após terminar de ouvir o Corvo, a Coruja, agora com um plano em mente, se prepara para saltar no lago e colher algumas memórias, esquecendo-se totalmente do seu medo de nadar; porém, o Corvo logo a impede.
“Espere, Coruja! O que pretende fazer?!”, o Corvo pergunta.
“Tive uma ideia! Vou pegar emprestadas algumas dessas memórias! Imagine quantas histórias incríveis vivem aqui!”, ela explica.
“Mas, Coruja... não é para isso que eu a trouxe aqui…”, ele diz. “Por que não apenas observar? Você não deveria roubar as lembranças dos outros...”, o Corvo explica. Porém, a Coruja, tão desesperada, o ignora, saltando no lago mesmo assim.
O Corvo observa a Coruja meticulosamente coletando, analisando e descartando as diversas e preciosas memórias de seus vizinhos, colegas e amigos. Decepcionado, ele não sabe o que fazer, a não ser ir embora sem dizer nada.
Por fim, o dia se encerrou. O sol se despede e a lua enfim aparece. Iluminada por seu brilho, finalmente a Coruja volta para o seu estúdio, carregando consigo várias memórias que julgou interessantes.
Durante a noite, no ápice de sua energia, a Coruja remendou, misturou e moldou uma nova história baseada nas memórias que inocentemente roubou...
Na manhã seguinte, tal história já estava nos jornais e revistas do vilarejo, entretanto…
“Como souberam disso...?”, alguém questionou-se.
“Que absurdo!”, o gato liga para seu advogado.
“Au!”, o cachorro, extremamente zangado, late.
Todos os moradores estavam indignados em encontrar nessa história pequenos pedaços das suas próprias vidas. Tudo isso, claro, sem suas permissões.
A Coruja, observando de sua janela, não entende o porquê dessa recepção tão hostil. Ela imaginou que todos gostariam de ver suas vidas reimaginadas como algo novo e… divertido.
Com um susto, ela ouve algo bater em sua janela. Acreditando ser uma pedra ou até um tijolo, ela percebe que era apenas o Corvo.
“Coruja, desculpe por ter ido embora ontem sem dizer nada, mas...”, ele tenta encontrar palavras para dizer à Coruja, que se encontra desviando o olhar dele.
“Você não deveria ter mexido na memória das pessoas sem permissão... Além disso, ao tomar aquelas memórias e moldá-las em algo novo, o resultado acabou sendo algo indecente e imoral...”, o Corvo, detalhadamente, explica.
“Indecente e imoral...”, a Coruja pensa. O sermão de seu amigo, embora certeiro, irrita a Coruja pois, no fundo, ela sabe que errou.
O Corvo se oferece mais uma vez para ajudá-la; porém, a Coruja, com seu orgulho ferido, rejeita sua ajuda e sente que sua carreira como escritora estava destruída.
Agora, mais depressiva e desesperada do que antes, a Coruja passa a acreditar que simplesmente escolheu as memórias erradas. Assim, ela decide fugir e retornar ao lago mais uma vez, deixando o Corvo para trás enquanto voa velozmente pelo céu.
“Desta vez, eu vou conseguir tratar bem essas palavras tão fluídas e sensíveis!”, a Coruja pensa.
Ao chegar, ela decide vasculhar o lago atentamente, observando as memórias e pegando as melhores que encontrasse. Porém, o esforço foi tanto que ela não percebeu que já estava na parte funda do lago e, com o tempo, começou a se afogar nele sem perceber. Logo, a água e as memórias começaram a encobri-la.
E então, tudo fica escuro...
De repente, uma forte luz aparece.
Um bebê, tão pequeno e frágil, mama no seio de sua mãe. Sua pele lisa e pálida reflete a luz da vela na mesa. A Coruja olha para o bebê. Seu pequeno olho se abre e ele olha para a Coruja por um tempo antes de fechá-lo novamente.
A Coruja se sente sonolenta com a chuva que cai sobre seu pequeno corpo nesta floresta nebulosa. Ela decide descansar ali mesmo, aproveitando a paz que esta solidão lhe trazia. Entretanto, uma marcha barulhenta se iniciava do outro lado da floresta. Os soldados marchavam lentamente pela floresta; fazia sol ou fazia chuva. Um disparo acontece e a bala atinge uma árvore próxima à Coruja. Ela acorda.
Uma antiga casa de madeira e o seu pé de maçã. Uma vista inspiradora, mas de quem será essa casa?
Uma grande reunião entre pessoas; o casal se beija e o padre os abençoa.
Uma visita inesperada.
A Coruja observa diferentes cenários que ela mesma nunca experienciou em sua vida. Isso a entristeceu um pouco, mas este ainda não era o fim.
A porta daquela humilde casa de madeira se abre. Uma forte luz emana dela. A Coruja se sente atraída e, sem perceber, atravessa a porta, que se fecha logo em seguida. Ao entrar, tal luz a encobre, levando-a para um lugar novo.
Em uma praça movimentada, um homem corcunda contava histórias. Ele esbanjava sabedoria e, com um gesto de sua mão, se apresentava como um contador de fábulas.
A Coruja fica confusa, mas sente uma certa familiaridade com tal pessoa. Ela permanece ali, sentada naquele chão, ouvindo as histórias daquele homem como uma criança. Ela gostaria de conversar com ele. Ouvir mais.
Ver alguém que esbanjava criatividade e que contava histórias assim como ela era inspirador. Uma certa nostalgia preenchia a Coruja — uma que há muito não sentia. Infelizmente, seu tempo era contado e, por fim, o show se encerrava. A luz se apaga e ela sente algo a arrastando de volta, retornando àquela casa de madeira. No entanto, algo na Coruja havia mudado e ela já não estava mais triste.
Ao acordar, a Coruja se encontra na margem do lago. Ela cospe a água que havia engolido e olha para o lado: o Corvo havia a salvado. Agora, sentados no chão em silêncio, a Coruja sentia uma leve tristeza vindo do Corvo, porém, agora ela finalmente era capaz de aceitar as palavras ditas por ele anteriormente.
“Eu entendo agora...”, a Coruja diz, surpreendendo o Corvo, que observava o sol refletido na água.
“Eu deveria me concentrar em criar minhas próprias memórias e histórias, sem depender das preciosas e frágeis memórias dos outros.”
O Corvo acena a cabeça, alegre com a realização de sua amiga.
Agora, ambos retornam juntos para o vilarejo. Os outros animais seguiram com suas vidas normalmente após o incidente pela manhã. A Coruja os observa e se sente confiante em tentar novamente — desta vez, sem estar confinada ao seu pequeno estúdio.
Observando o iminente pôr do sol, a Coruja decide convidar o Corvo a se sentarem em um banco ali próximo. Após isso, a Coruja diz:
“Quer ir pescar comigo?”
Fim.