Trenodia para a Morte do Autor

Publicado em: 4 de Janeiro, 2026


[II. Silêncio] Satisfeito, vejo que tudo foi muito bom... Após décadas dedicadas à escrita, Noto que o vil cigarro segue refém Dos dedos da minha já cansada mão. Me encontro aqui presente, tão plenamente, À deriva neste mar de escuridão, temente. De cabelo cor grisalho e sempre de terno, Aguardo aqui, então, o meu provável inferno. Sob estrelas e suas belas constelações, Um levante tonal toma minha sã visão: [III. Som] Iluminados pelas estrelas, vem A infeliz banda tocar seu blues. Eletrizante, fenomenal... É quase celestial; E quase me faz esquecer. Passo a me perder por entre as notas. O vento estelar abala meu cigarro. "Vem dançar, garoto beatnik!" "É pau, é pedra"— onde eu estava? [IV. Surto] Sentado, em meio ao espaço, Sinto minha perna — trespasso. Tudo fica preto-e-branco. "Caro vento estelar. Leve embora o que tenho para dar; Não irei mais sonhar." Enquanto sinto que me perco, Palavra por palavra, Reviro os livros Escritos em meu bolso. Visto os personagens Cujo sou progenitor. Máscaras e personas — de nada adiantam. "Senhor, ajude minha pobre alma..." Vooosh... Na cozinha, alguém me encara. Abro os olhos. Luz quente e ainda encara. Sentado, sinto um fisgado, Tempo parado. Ainda vivo? [Major Caolho] "As ideias têm vida própria", Ele diz, em pé. "Tudo é questão de usar a isca certa." Ele se vira, com fé. De pé na areia, estou. Desespero, enfim, passou, Agora, mar escuro. Ouço por entre a brisa Um som De algo puro. Um major aposentado, Superior e focado, Enfim, se revela. "O segredo é tirar e devolver." Gentilmente, ele extrai a tinta, E, de volta ao mar, o peixe retorna. "Uma nova ideia a ser preenchida", Ele zela. Com a tinta, uma caneta abastece. "Tenho um lugar para te mostrar", E então, ele a oferece. "Uma segunda chance, para variar." Mais uma vez, caneta em mãos; Por fim, vivo novamente. [I. Salvação] "Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar." Daqui, minha humilde casa parece tão pequena. Acordo com o som do vapor da chaleira. Seu cheiro preenche meu quarto E faz feliz meu olfato... Lar doce lar. Me encontro aqui, novamente. À deriva nesse mar de escuridão, sem inspiração. De cabelo cor castanho e tão jovial, Escrevo o que se tornará herdeiro, novamente. Escrevo, como se primeira vez, Com medo, uma última vez. O passado Dentro do presente. Ouvidos rebeldes não ouvem. No anoitecer, os sentidos se dissolvem. Ao sonhar, estarei lá Guiando — seu patrono será. "Vem sonhar, garoto beatnik!" Cadernos e folhas, Ideias guardadas, O futuro Moldado no passado E o passado, Moldado pelo presente. Batismo primaveril. Semente plantada; Tudo se esvai... [V. Sangria] "Satisfeito com sua alvorada?", O Major pergunta. Sentindo gratidão, Ainda havia algo para ser dito: Um posfácio? Não, talvez uma trenodia. Com a caneta ainda em mãos E com sua voz ainda alta, Um poema escreverá; Não para dizer o que pensa, Mas para pensarem Com uma voz emprestada. Finalizado e guardado em garrafa, O poema é sepultado E lançado ao mar consciente. Últimas palavras De um autor resignado; Próximas palavras Para um leitor exigente. Por fim, devolvo a caneta; Encarei a morte duas vezes, afinal: A morte carnal E a morte do autor. Satisfeito, vejo que tudo foi muito bom.
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